mais do que ser bebida na agonia de notunas taças onde dor e cristais se (con)fundem e a baunilha da lua escorre feito baba de moça nas bocas de lixo não sabia que viver ia além de respirar não se pervertia não se permitia amargava a boca pela falta de beijo de rasgo nos lábios de sulcos de sangue e uma língua descalça que ousasse brincar no quintal da garganta e se enchia de vinho pra encher o vazio do excesso de ócio e da falta de cio
lua me deixa ser teu céu pra que imensa eu te pertença e tu me habites infinitamente lua me deixa ser teu universo posto que tu já és o meu eternizada musa nos meus miúdos versos
Levarei comigo o contorno dos teus traços A saudade de nascer e morrer em teus braços. Levarei a cor do céu quando ele escurece E o adorarei qual beata em louvor à prece.
Levarei a saudade do que não se viveu As cenas de amor, o beijo que se perdeu. Levarei o frio da noite que estremece E a lembrança que o meu corpo aquece.
Levarei teu riso como bem precioso E a louca simbiose ecoando o gozo Desvirginando flores pela madrugada,
Quando em meio à lua e à maresia Rimávamos nossos corpos em poesia E eu brotava rosa,por ti orvalhada.
me consome esse homem cuspindo fogo pelos poros com mãos em chamas me chamando pro incêndio com lábios em brasa me queimando o corpo inteiro me consome esse homem escalando sem culpa meus altos e baixos decupando sem pressa meus seios e sais arranhando com gana meus discos e ossos me consome esse homem com fome de bicho nada preguiça que estica e se encolhe que urra e me curra mastiga e engole e depois morre dentro de mim
quem sabe um dia escondida no vento voando ao acaso eu esbarre em ti numa esquina fria feito fase de lua ou fúria de maré arrepie tua pele e te faça gemer o frio dos invernos em pleno verão quem sabe um dia você entenda que roçar umbigos trançar pelos e coxas e arranhar o céu da boca com o voo de mil línguas é a coisa mais linda que eu tenho na vida pra te oferecer: amor
Toda linha é pouca se a razão é louca. Não cabe no verso o tamanho do amor. Perde-se de vista; o olho não alcança. Não cabe no verso qualquer explicação. O amor é uma língua que só a nossa boca sabe a tradução.
quando tocas com a íris a ponta dos meus seios e vês nos meus olhos os teus em devaneios o mundo parece que pira o tempo parece que para a gente perde a linha e também o fio da meada os lábios ficam grudados imantados de cio e tesão a língua em brasa arrebita e duela com a outra aflita lanha suga sobe desce molha excita incita fere e no ápice do atrito entram em curto-circuito então a vista escurece e a terra toda estremece não há santo que aguente nem diabo que nos carregue
Olha, seu moço já virou rotina esse papo de chacina. Isso é coisa que eu ouço desde os tempos de menina quando eu era direita, bonita, e moça feita. Quando as vozes do morro imploravam socorro nos ouvidos surdos dos homens mudos, os chamados "doutores" que faziam horrores inclusive vistas grossas pra certos assassinos. E nas raras vezes que entravam na favela nos passavam em revista, nos chamavam de cadelas mandavam fechar a boca e só abrir pra comer o senhor sabe, o quê...
Olha, seu moço nunca tive diamante mas era ajeitada e limpa, limpa por dentro e por fora, era bonita e elegante tinha mais dentes que agora tinha motivos pra sorrir e até uma cama pra cair. Hoje só caio na real sem direito a aviso prévio sem direito a tropeçar primeiro nos meus sonhos.
Tá difícil, seu moço... Sem trabalho, dou trabalho. É barra segurar a onda quanto mais toda a maré. Então vou morrendo em vida afogada em tristezas, afinal... nadar contra a Tsunami, quem quer?
Diante de ti, moura,louca e seminua,
-ora escrava,ora Rainha de Sabá-
com a pele da cor nobre da pantera
E a face cheia de olhos descortinados
É que faço brotar dos rascunhos pobres,
Tragando uma pungência aqui e outra acolá,
Poesias que tenho medo de revelar.
Femeal-maliciosa de corpo e alma-
Debruças diante de mim serpenteada
Com a boca em fogo implorando venenos;
Beijas-me com o beijo sutil da morte
Injetando insensatez nas minhas veias
Contaminando, uma a uma, as palavras
Que consomem, ávidas, meu sangue vivo.
Envenenado com meu próprio veneno
Morro na tua boca, sangrando poesias.
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Oswaldo Antônio Begiato
AMOR
Oswaldo Antônio Begiato
Eu te amo desde que vi o teu primeiro sacolejar de ancas,
Descendo as escadarias da Vigário,
Com cabelos longos e negros e castiços
Em tranças e soçobrando em tua bunda luaceira.
Amei-te com um amor raro, inusitado,
- Incompreensível até -
Encontrado somente em corações revestidos de platina
E nas almas diamanticamente azuis.
Estranho é me pegar descobrindo com um coração enferrujado,
Uma alma desleixadamente coberta de carvão
E tu os impregnando como se fosse um turbilhão irremovível,
Polindo e lapidando tudo com tamanho estardalhaço
Que até o silêncio dentro de mim despertou assustado. E limpo.
Isso sim é amor raro. O teu.
IRRACIONAL
Oswaldo Antônio Begiato
E tu, que de tão irracional,
Me veio amar assim tão bela,
Tão intensamente insensata,
Tão espantosamente desregrada.
Tão menina. Tão frágil. Tão volúvel.
Tão corajosa. Tão intrépida. Dizes-me que eu estou sempre cheio de razão,
Mas dominado pelo medo.
É verdade. Razão e medo são irmãos
Gerados em uma superfecundação heteropaternal:
- Engano e Costume
Aproveitaram-se dos óvulos férteis da insanidade.
A razão enfeia as pessoas.
Quanto mais irracional, mais belas ficam.
Eu cheio de razões e medos fiquei tolo.
Eles me levaram a um enclausuramento de mim mesmo.
Fiquei feio. Fiquei torto.
Bonito é o irracional. Vou ser insensato.
É a insensatez que se engravida dos amores mais belos.
Por isso não chores.
Quero-te olhando, não te quero chorando.
Desejo que possas sempre estar com os olhos livres
Para poder olhar. Poder me olhar.
Olhos livres não se fazem com lágrimas.
Quero, a partir de agora, ser a tua paisagem mais irracional.