domingo, 10 de julho de 2011

INSÍGNIA


INSÍGNIA
milene sarquissiano

vem ler o meu corpo
com a palma dos olhos
desossar os mistérios
do mapa de sangue

vem sacro e satânico
aridez e mangue
e caminha por ele
com a sola das mãos

depois da aventura
com a tinta da língua
faz verso na carne
põe tua assinatura

quinta-feira, 14 de abril de 2011

AGÔNICA


AGÔNICA
milene sarquissiano


mais do que ser bebida
na agonia de notunas taças
onde dor e cristais se (con)fundem
e a baunilha da lua escorre
feito baba de moça
nas bocas de lixo
não sabia que viver
ia além de respirar
não se pervertia
não se permitia
amargava a boca
pela falta de beijo
de rasgo nos lábios
de sulcos de sangue
e uma língua descalça
que ousasse brincar
no quintal da garganta
e se enchia de vinho
pra encher o vazio
do excesso de ócio
e da falta de cio

quarta-feira, 16 de março de 2011

MUSA

MUSA
milene sarquissiano

lua
me deixa ser teu céu
pra que imensa
eu te pertença
e tu me habites
infinitamente
lua
me deixa ser teu universo
posto que tu já és o meu
eternizada musa
nos meus miúdos versos

segunda-feira, 7 de março de 2011

LOUCA SIMBIOSE


LOUCA SIMBIOSE
Milene Sarquissiano

Levarei comigo o contorno dos teus traços
A saudade de nascer e morrer em teus braços.
Levarei a cor do céu quando ele escurece
E o adorarei qual beata em louvor à prece.

Levarei a saudade do que não se viveu
As cenas de amor, o beijo que se perdeu.
Levarei o frio da noite que estremece
E a lembrança que o meu corpo aquece.

Levarei teu riso como bem precioso
E a louca simbiose ecoando o gozo
Desvirginando flores pela madrugada,

Quando em meio à lua e à maresia
Rimávamos nossos corpos em poesia
E eu brotava rosa,por ti orvalhada.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

CONSUMAÇÃO


Consumação

milene sarquissiano


me consome
esse homem
cuspindo fogo
pelos poros
com mãos
em chamas
me chamando
pro incêndio
com lábios
em brasa
me queimando
o corpo inteiro
me consome
esse homem
escalando
sem culpa
meus altos
e baixos
decupando
sem pressa
meus seios
e sais
arranhando
com gana
meus discos
e ossos
me consome
esse homem
com fome
de bicho
nada preguiça
que estica
e se encolhe
que urra
e me curra
mastiga
e engole
e depois
morre
dentro de mim

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

DOÇURA


Doçura

milene sarquissiano


duas maçãs fresquinhas
uma xícara de chá
e aurora com bolachinhas

o que mais posso querer?

morar num campo florido
fazer com as flores um vestido
só pra você pousar em mim
feito beija-flor esfomeado

o que mais posso querer?

beijar teus lábios de pitanga
guardar os beijos num potinho
e quando der fome de doce
comê-los bem devagarzinho

é tudo o que eu quero

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

OFERECIDA


Oferecida

milene sarquissiano


quem sabe um dia
escondida no vento
voando ao acaso
eu esbarre em ti
numa esquina fria
feito fase de lua
ou fúria de maré
arrepie tua pele
e te faça gemer
o frio dos invernos
em pleno verão
quem sabe um dia
você entenda
que roçar umbigos
trançar pelos e coxas
e arranhar o céu da boca
com o voo de mil línguas
é a coisa mais linda
que eu tenho na vida
pra te oferecer: amor

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

INTRADUZÍVEL




INTRADUZÍVEL
milene sarquissiano

para Oswaldo Antônio Begiato


Toda linha é pouca
se a razão é louca.
Não cabe no verso
o tamanho do amor.
Perde-se de vista;
o olho não alcança.
Não cabe no verso
qualquer explicação.
O amor é uma língua
que só a nossa boca
sabe a tradução.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

PEGADAS


Pegadas
milene sarquissiano


vens no tremular das pálpebras
com longos cílios de sedução
deslizando no caule noturno
o néctar selvagem dos mistérios

vens na gratuidade do sereno
espreguiçando gotas sobre lençóis d'água
escrevendo a poesia úmida
que flui na correnteza dos olhares

vens na ousadia crescente da lua
entre nevoeiros de solidão
lambendo a poeira dos naufrágios
em carícias salgadas de além- mar

vens na maciez fresca da aurora
fundir-te em tronco à raiz do dia
roçando lábios no ventre da terra
deixando beijos como pegadas

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ALTA TE(n)SÃO



ALTA TE(n)SÃO
milene sarquissiano

quando tocas com a íris
a ponta dos meus seios
e vês nos meus olhos
os teus em devaneios
o mundo parece que pira
o tempo parece que para
a gente perde a linha
e também o fio da meada
os lábios ficam grudados
imantados de cio e tesão
a língua em brasa arrebita
e duela com a outra aflita
lanha suga sobe desce
molha excita incita fere
e no ápice do atrito
entram em curto-circuito
então a vista escurece
e a terra toda estremece
não há santo que aguente
nem diabo que nos carregue

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

PRESSA


PRESSA

milene sarquissiano

amar

não dá
pra adiar

a
manhã

foi

amanhã...
...já era!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

FOME


terça-feira, 14 de setembro de 2010

ARES DE PRIMAVERA



ARES DE PRIMAVERA
Milene Sarquissiano


Manhã de setembro que sou,
venho com meu corpo primaveril
repleto de bem-me-queres
e impregnado de suavidades,
à procura do amor-perfeito.

Trago no hálito de alfazemas
o frescor virgem do beijo prometido,
e chovo na aridez da tua boca
pétalas molhadas de desejos.

Tua língua vira um canteiro
onde borboleteiam gemidos,
zonzos de tanta paixão.

Não se engane comigo:
- tenho ares de primavera
mas sou mais quente que o verão
.

sábado, 4 de setembro de 2010

OLHOS


OLHOS
Milene Sarquissiano

AMENDOADOS
A MIM DOADOS
AMÉM.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

(IN)FARTO


(IN)FARTO
Milene Sarquissiano


Arranho a garganta do tempo
com a agudez de quase unhas.

Rouca, a dor geme afiada,
cortando os pulsos da neblina.

A insanidade gargalha incontida
rompendo o silêncio dos lábios.

Equilibrada na escuridão,
a lua lambe o asfalto,
farejando o cio do chão.

A boca da noite fede,
...late uma saudade cão.
Rosna de dor o peito
(in)farto de solidão.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

HEMORRÁGICO AMOR


HEMORRÁGICO AMOR
Milene Sarquissiano

Será à mesa da tua fartura que matarei a fome
do conhecimento e lamberei o prato da sabedoria?

Em que pé de vento calçarei a serenidade furacônica
das minhas tempestades mais levianas?

Qual livro ousará revelar os romances tórridos que
eu nunca tive e as doenças que cultivei em segredo?

Em que mar de lama meus olhos azuis plantarão rosas
e colherão valentes violetas, cheirando à sarjeta?

Que estrela fecundará em seu ventre as ideias que
lancei no ópio da noite, entorpecido pelo êxtase lunar?

Quantos bêbados vomitarão suas poesias tontas
na boca do estômago das minhas horas insones?

Em que barco naufragará a tristeza da minha alma
que me afoga e afunda, em terra firme e de ninguém?

Quantas folhas tombarão no outono dos meus olhos
revelando a paisagem pardacenta das minhas retinas?

Em que túmulo jazerá o verso anêmico que sangrou
até a morte, em nome do nosso hemorrágico amor?

sábado, 3 de julho de 2010

SOLO


SOLO
Milene Sarquissiano

Gosto do teu olhar perdido e torpe
Valsando lento por meus encantos
Pousando malicioso nas minhas delícias

Gosto do calor que vem da tua boca
Quando tua língua dissimulada
Incendeia versos na pele dos meus lábios

Gosto das nossas salivas misturadas
Afogadas num desejo que não cessa
Engolindo o gosto dos nossos sais

Gosto do arrepio que corta a carne
Quando tomas meu seio em tua boca
E minhas fendas, em teus dedos

Não gosto de abrir os olhos
E ver refletida no espelho
A minha imagem...e a de mais ninguém.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

TSUNAMI


TSUNAMI
Milene Sarquissiano


Olha, seu moço
já virou rotina
esse papo de chacina.
Isso é coisa que eu ouço
desde os tempos de menina
quando eu era direita,
bonita, e moça feita.
Quando as vozes do morro
imploravam socorro
nos ouvidos surdos
dos homens mudos,
os chamados "doutores"
que faziam horrores
inclusive vistas grossas
pra certos assassinos.
E nas raras vezes
que entravam na favela
nos passavam em revista,
nos chamavam de cadelas
mandavam fechar a boca
e só abrir pra comer
o senhor sabe, o quê...

Olha, seu moço
nunca tive diamante
mas era ajeitada e limpa,
limpa por dentro e por fora,
era bonita e elegante
tinha mais dentes que agora
tinha motivos pra sorrir
e até uma cama pra cair.
Hoje só caio na real
sem direito a aviso prévio
sem direito a tropeçar
primeiro nos meus sonhos.

Tá difícil, seu moço...
Sem trabalho, dou trabalho.
É barra segurar a onda
quanto mais toda a maré.
Então vou morrendo em vida
afogada em tristezas,
afinal...
nadar contra a Tsunami, quem quer?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

VIAGEM



VIAGEM
Milene Sarquissiano

Carregada nos braços da noite,
Visto-me com o perfume das flores
E viajo distâncias...

Esse querer em outras quimeras,
Despertando adormecidos sentimentos,
Me fascina.

São quilômetros de sonhos,
Num transitar de emoções infindas,
E coloridas ilusões.

Tua ausência é tão presente,
Que te faz presença constante.

Vôo nas asas do vento,
Perco-me em estrelas guias,
E te encontro...
...na lua!

Amanheço na tua boca
Com o gosto do sereno.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

PERDIÇÃO


PERDIÇÃO
Milene Sarquissiano


Se me pedes
Não nego

Se te dou
Me falta

Se te tiro
Me dói

Se te olho
Me atrevo

Se te abraço
Me esqueço

Se te beijo
Me perco

Se me perco
Me entrego...

...e nunca mais me acho(nem quero!)